Tuesday, February 24, 2004

Por vezes, deparamos com pensamentos que nos marcam profundamente. Alojam-se na nossa memória, e ressuscitam nas mais diversas situações. Pois bem, neste preciso momento a minha memória prende-se com o fim. “ A coisa mais importante de todas as coisas, o fim.”
Nesta hora de encerramento de um projecto, decidi fintar esta inelutável condição que me abraça desde sempre: a minha solidão. Condição melancólica que proporciona a minha liberdade. Pelo menos é o que afirma o Professor Agostinho da Silva no topo deste meu canto moribundo da Internet.
Estou entre coisas boas. Desfruto de dois dos meus maiores amores de sempre: a Música e a Literatura. Os meus ouvidos sorvem a harmonia da música de Nitin Sawhney, concretamente a canção Immigrant. A quantidade de posts que redigi na álgida Viseu ao som de música. A música adocica a existência. Ameniza as agruras da vida, e constitui sempre um incentivo. Mesmo quando quase todos nos abandonam!
Passeio os olhos pelo meu objecto predilecto: o livro. Este companheiro na solidão tortura-me. Leio o Sonho. Leio o Talento. Leio a Vida. Entristece-me a limitação da minha mente. A quantidade de livros lidos, e rapidamente esquecidos. Palavras fugazes que se evaporam no ar.
Este post anuncia o fim da minha sombra. Segui o alvitre do Professor: libertei-me. O pensamento legitimador desta minha obra, ruiu. Como tal, porque prosseguiria eu num combate ao meus moinhos de vento imaginários?
Ergamos bem alto os nossos copos de gin. Brindemos à Alegria. À Mudança. À Beleza. À Sedução. Ao Charme. À Inteligência. Brindo com aqueles que sabem a gravidade da palavra Amizade. Brindo a Ela!


Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém…
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te…
Talvez peses mais durando, que deixando durar…

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: poucos te chorarão…
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros…

Álvaro de Campos


Declaro oficialmente encerrado o blog “a minha sombra”, de autoria de Luís Mendes Leal.

Sunday, February 08, 2004

Penitencio-me perante os meus dois únicos leitores do meu cantinho na Net. Estou plenamente consciente do desleixo a que a minha sombra foi votada. Não prometo que tal este facto irá ser alterado num futuro imediato, mas pelo menos tentarei prestar alguma atenção a este meu exercício solitário de reflexão.
A razão é bem simples. Larguei a minha vida de jovem desempregado, que ocupava o seu tempo a ler diariamente o Público, e a os meus livros. Agora os tempos são outros. Felizmente!
Não escondo o júbilo que me invade. Após muitas horas de reclusão solitária a reflectir sobre a minha vida, regozijo-me plenamente com o rumo que a minha vivência percorre actualmente. Finalmente desatei a conhecer novas pessoas, bem formadas, inteligentes e cultas. E o mais interessante é que após três meses avessos a interacções com terceiros ainda não perdi o jeito...

Sunday, February 01, 2004

O argumentário utilizado pelas potências invasoras do Iraque assenta em manipulações grosseiras. O primeiro argumento que exprimia a necessidade da deposição de Hussein foi a proliferação de armas de destruíção maciça. Pois bem. o tempo provou que esta hipótese é falaz, totalmente desprovida de concretização no terreno. David Kay, líder do Iraq Survey Group, admitiu que afinal o Iraque não possuía as tão propaladas armas.
O Presidente Bush, apanhado numa mentira grosseira, rapidamente alijou responsabilidades. Seguindo a teoria de David Kay, Bush transfere a responsabilidade por esta mentira grosseira para a CIA. Surge em cena um novo bode expiatório, George Tenet. O antigo Secretário do Tesouro, Paul O Neill afirmou que a decisão de invadir o Iraque já tinha sido tomada antes do 11 de Semtebro...
O aliado indefectível de Bush, Blair, também passou por momentos politicamente complicados. Fabricou um arranjo com os seus próprios deputados trabalhistas, de modo a obter a aprovação de uma nova lei referente às propinas. A sua liderança saiu notoriamente enfraquecida deste episódio, visto Blair se ter colocado nas mãos dos seus colaboradores, e de ter ficado patente na opinião pública que Blair já pouco manda no Labour.
O outro momento delicado para Blair foi a revelação das conclusões do relatório Hutton, que se debruça sobre uma reportagem da BBC nada abonatória para Blair. Nela, o jornalista insinua que a famosa tese dos 45 minutos não passou de uma fabricação grosseira com o desiderato de conquistar a opinião pública para uma guerra ilegal. As conclusões revelaram-se bastante proveitosas para Blair, ilibando totalmente o seu Governo de má conduta. Acusa veementemente a actuação da BBC, o que provocou a demissão de Greg Dyke e do jornalista que realizou a reportagem em questão.
Tanto nos E.U.A e no Reino Unido, as mentiras não provocaram quaisquer demissões políticas. Bush adopta a táctica da ingenuidade. Só tomou a decisão de invadir o Iraque porque os serviços secretos lhe asseguraram que Saddam possuía armas de destruíção maciça. Então, mas o relatório que Powell apresentou no Conselho de Segurança não foi rebatido, e desmontado por quem se opunha à guerra? No Reino Unido Blair lava a face com este relatório Hutton definido por muitos como tendencioso.
Os neo-conservadores já ensaiam desde há muito uma nova conjectura: Saddam era um ditador sanguinário, pelo que a sua remoção da liderança iraquiana era indispensável. Certamente esta atitude filantrópica seria de enaltecer. o problema é que Bush anda mais preocupado com a sua re-eleição do que com os iraquianos. Se realmente Bush tivesse sido orientado pelo designio da liberdade, então não se coíbiria de enunciar os novos alvos a abater. Podia encarnar o espírito dos Cruzados que lutavam para propagar a fé cristã, o que neste caso seria a liberdade. Afinal não são os E.U.A o País amante da liberdade? Não, estes valores de liberdade e democracia são rapidamente substituídos por uma re-eleição. Karl Rover, braço direito de Bush na Casa Branca, lançou um slogan para consumo interno dos Republicanos: " No war in 2004" Afinal, o que importa é ganhar eleições e não fundar a democracia à bomba. É que em ano de eleições o que importa é conquistar Marte...

Tuesday, January 27, 2004

Um dos valores nucleares do edifício teórico marxista é o internacionalismo. A expressar esta visão global do mundo temos a velha palavra de ordem : “ Proletário de todo o Mundo, uni-vos!” Lenine propunha a exportação da Revolução Russa de 1917 ao maior número possível de locais no Mundo. Guevara, revolucionário argentino, não se coibiu de proferir o seu ardor internacional: “ É preciso atear 1, 2, 3 Vietnames.” É precisamente este internacionalismo marxista que causou algumas cisões no movimento socialista, nomeadamente o conflito sino-soviético.
O sucessor de Estaline, Krutchev, alterou radicalmente a política externa do seu antecessor. A sua estratégia de relacionamento com os E.U.A passava por um abrandamento da tensão nessa relação. O acordo nuclear de Moscovo expressa esta nova aproximação. Este acordo tripartido visava cessar as experiências atómicas, excepto as subterrâneas. Pequim entendeu este acordo como uma vacilação perante o poder a que os E.U.A pretendiam impor ao resto do Mundo.
O Grande Timoneiro, Mao Tsé Tung, apresentava algumas discordâncias teóricas com o P.C.U.S. Desde logo exortava os restantes Estados a realizarem as suas próprias revoluções. Frequentemente acusados de aventureiros, os Chineses advogavam por uma luta armada constante contra o Império capitalista. Ora bem, esta tese contrapunha-se totalmente ao novo pragmatismo soviético. Outra peculiaridade do pensamento maoista era a metodologia a adoptar para se concretizar a guerrilha. Lenine conquistou o poder apoiando-se no proletariado industrial, e só seguidamente atraiu o apoio dos camponeses. ( Recomendo a leitura do clássico de John Reed, 10 dias que abalaram o Mundo. A riqueza desta obra não é o seu rigor cientifico, mas sim o facto de o autor ter vivido in loco os acontecimentos por si relatados. È a primeira obra escrita sobre a Revolução Russa de 1917, e logo escrita por um americano.) Mao propunha uma fórmula de acção diametralmente oposta à de Lenine: o cerco seria feito pelo campo às cidades.
A luta entre estes dois Estados do bloco socialista desenrolou-se em vários campos. François Fetjo aponta desde logo três categorias em que esse combate pela hegemonia no bloco socialista se realizou: intromissões de um Estado na vida interna de outro; incidentes fronteiriços e disputa territoriais, a U.R.S.S e a China separavam-se através de uma fronteira de 1000 kms. Os Soviéticos chegaram a mobilizar para a sua fronteira 1 milhão de soldados, pressionando militarmente os Chineses; por último, e porventura a categoria mais importante: o confronto diplomático entre os dois Estados.
Este último ponto fez do Terceiro Mundo um ponto de confronto entre estes dois Estados. Este confronto agudizou-se especialmente na Guerra do Vietname. A Rússia jogava claramente em dois tabuleiros: a aproximação aos E.U.A, e arriscava o seu prestígio perante o bloco socialista. Cientes desta duplicidade soviética, os Chineses apoiaram o Vietname do Norte com logística militar, o que acarretou à Rússia a obrigação de aumentar igualmente o seu apoio. Aliás, os Chineses praticamente foram obrigados a tal. Não poderiam assistir impassíveis ao alastramento da influência soviética na Ásia.
O combate na frente diplomática de ambos os contendores implicava o isolamento do rival. A China apercebendo-se deste facto aproxima-se gradualmente aos E.U.A, denunciando o imperialismo social da U.R.S.S. Os Chineses desenvolveram uma aproximação à Albânia, França, Camboja, Paquistão, Roménia, Suécia. Visavam romper com o cordão de isolamento com que os Soviéticos gostariam de prender os Chineses. Desta forma caía a ideologia na política externa, dando lugar ao pragmatismo. Esta alteração de paradigma está intimamente conectada com a morte de Lin Piao, e o surgimento do poder de Chu-en-Lai, acérrimo defensor de uma perspectiva pragmática.
O realismo nas relações internacionais conduziu ao confronto algo áspero entre dois Estados do bloco soviético. A recusa da hegemonia do poder soviético, a defesa do combate contra o imperialismo norte-americano granjeou um imenso prestígio a Mao no Ocidente, nomeadamente em círculos estudantis e intelectuais. Inúmeros grupos maoistas criaram-se, interrogando um poder burocrático e afecto a velhos dogmas marxistas. Este confronto conduziu a que Nixon tivesse visitado a República Popular da China, e a que estes elegessem a U.R.S.S como o seu principal rival.

Sunday, January 25, 2004

Escrevo estas palavras algo ainda chocado com o desfecho trágico do Benfica Guimarães. Assisti em directo à paragem cardíaca do jogador Féher em pleno relvado do Dom Afonso Henriques. As imagens da sua queda desamparada provocaram em mim um sentimento de pavor. Ainda uns segundos antes Féher ria-se com a amostragem de um cartão amarelo. A seguir cai inerte.
Um pensamento atravessa a minha mente. A frieza e cinismo da morte, e o poder que esta possui em inferiorizar as coisas banais. O que interessa agora o resultado do jogo? O que importa o futebol? Tudo isto perde o seu relevo perante a brutalidade das imagens de Féher a tombar no relvado.
O surgimento da Morte desta forma inesperada conduz-me a indagar sobre a vida, e sobre todos os que me rodeiam. E se eu morrer não dizendo as palavras que gostaria às pessoas que são importantes para mim? E se porventura alguém que me é querido perecer, e não ficar a saber os sentimentos que eu nutro por essa pessoa? Porra, porque é que a Morte tem de ser definitiva? E porque é que nos aborrecemos todos uns com uns outros por causa de porcarias que não interessam a ninguém? Será que não sabemos que no fundo tudo acaba? Porque complicamos tanto a vida uns dos outros, e ferimos aqueles que nós mais amamos? Por vezes somos tão corajosos para umas coisas e tão cobardes para outras. O que custa verbalizar os nossos sentimentos perante aqueles que nos fazem sorrir? Porque é que as relações entre os humanos são sempre tão espinhosas? Afinal, de um momento para o outro podemos morrer! Jim Morrison no seu brilhante “ American Prayer” pedia a Deus uma hora para aperfeiçoar a sua vida antes de morrer. Eu peço cinco minutos para dizer as coisas que nunca disse, e que têm que ser ditas. Mas eu não acredito em Deus…
Não sou católico, e nem acredito em Deus. Esta minha opção é extremamente difícil de suportar em momentos como estes. Seria tão fácil confiar no poder de Deus para salvar a vida de um homem jovem. Se fosse crente rezaria pela vida de Féher. Escrevo estas palavras tendo somente o conhecimento de que ele sofreu uma paragem cardíaca. Desejo ardentemente que se restabeleça rapidamente. Do fundo do coração!




Thursday, January 22, 2004

Mais uma vez precipitei-me. Esta semana ainda não comecei a trabalhar. Problemas menores impediram-me de o fazer, mas já estão todos resolvidos. Aliás só começarei na labuta talvez para Fevereiro.
Até lá regresso à base: Viseu. Aguarda-me uma semana de boémia absolutamente desprovida de preocupações. Resolver assuntos que deixei a meio. Porventura o meu blog vai sofrer as consequências deste relaxamento. O número de blogs irá sofrer uma redução.
Queria agradecer a todos que me enviaram mensagens, e que escreveram nos seus blogs sobre mim.

Sunday, January 18, 2004

Este post, antes de tudo, simboliza um términus de uma fase da minha vida. A fase da liberdade, libertinagem intelectual. A fase da cultura dos bares e da despreocupação. Tudo isso terminou ontem. A realidade entrou pela minha janela, e roubou-me o bem-estar em que vivia. É verdade, amanhã começo a trabalhar como advogado estagiário no escritório do Dr. Lopes Cardoso. Um privilégio!
Estes tempos fantásticos vividos em Viseu ajudaram-me imenso. É sempre profícuo parar para pensar, reflectir sobre nós e sobre o futuro. Foi isso que fiz, bafejado por uma qualidade de vida elevada. Entreguei-me a leituras lúdicas de livros de todos os géneros. Semeei e rego quase quotidianamente o novo vicio da escrita. Redescobri a minha cidade. A cidade da qual há muito me tinha esquecido. Uma cidade com classe, tranquilidade, e acima de tudo com espaços que me dizem alguma coisa. Os meus bares, os meus parques, as minhas ruas, os meus passeios, o meu Liceu. No fundo, um reencontro com as minhas raízes. Não tenho dúvidas, sou de Viseu e orgulho-me de tal.
Este trajecto sinuoso não foi realizado solitariamente. Tive o apoio de pessoas que sei que querem o meu bem. O bem estar delas passa pelo meu. Esta ideia, antes recusada por mim, dogmatizou-se. Pessoas que me ajudaram nos momentos mais tristes, mais solitários. Momentos em que se começa a questionar o nosso papel nesta autêntica selva. Pessoas que não têm problema nenhum em me criticar. E criticas tão certeiras que nos ajudam a evoluír. Nisso não me posso queixar. Estive esplendidamente bem rodeado. Falo na minha Mãe, mulher extraordinária em todos os aspectos, e no meu grande amigo Tiago Pinhel ( CHULO ).
Apenas lamento uma coisa. Abandonar Viseu com todas as coisas boas que por lá deixei. É duro sermos forçados a largar os sitios em que nos sentimos bem. O sitio ao qual nós sentimos que pertencemos.
Entristece-me ainda mais uma coisa. Não ir quase todos os dias ao B.P.I. Aquela mulher loira linda marcou-me a memória poética...

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